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Entrevista

Não-professores podem fazer a diferença numa sala de aula

12/12/2014

A ideia veio mais do ­coração do que da cabeça. Por ter tido uma experiência ruim na escola durante a adolescência, o americano Eric Schwarz decidiu montar, em 1995, uma ONG voltada para a educação.


Filho de um advogado bem-sucedido e herdeiro da família que fundou e esteve por 100 anos à frente da tradicional loja de brinquedos FAO Schwarz, em Nova York, Schwarz contou ao longo dos momentos mais difíceis da juventude com pessoas que fizeram o papel de mentoras: os próprios pais e amigos da família.


Partindo do princípio de que crianças de baixa renda não têm tanto apoio, Schwarz criou a Citizen ­Schools. A ONG faz parcerias com escolas públicas, aumenta a carga horária e ocupa o tempo extra com voluntários, entre os quais profissionais de grandes empresas americanas, que desenvolvem projetos extracurri­culares com alunos de 11 a 14 anos.


Em 20 anos, 40 000 voluntários participaram de atividades com 50 000 crianças em oito cidades americanas. “A melhoria da educação não é só responsabili­dade do Estado”, afirma Schwarz, que acabou de lançar o livro The Opportunity Equation — How Citizen Teachers Are Combating the Achievement Gap in America’s Schools (“A equação da oportunidade ­­— Como professores cidadãos estão combatendo a desigualdade de resultados nas escolas americanas”, sem previsão de lançamento no Brasil).


EXAME - Oferecer educação de qualidade é uma das obrigações dos governos. Por que pessoas comuns deveriam se oferecer como voluntárias para trabalhar como professores?


Eric Schwarz - Todos os que concordam que a melhoria da educação é algo importante podem, a cada eleição, escolher os candidatos com as propostas que parecem mais apropriadas. Mas não podemos esquecer que também faz parte da cidadania acompanhar a adoção das políticas educacionais. E, quanto mais próximas as pessoas estiverem da realidade das salas de aula, maiores as chances de as políticas educacionais serem adotadas com sucesso.


EXAME - Mas experiências como a da Citizen Schools não acabam por retirar a responsabilidade do Estado?


Eric Schwarz - Não. Algumas das melhores coisas que foram feitas nos Estados Unidos começaram com os cidadãos. Só depois o Estado acompanhou.


EXAME - O que o faz pensar que pessoas sem formação em educação podem aumentar a qualidade do ensino?


Eric Schwarz - As diferenças de formação de crianças e adolescentes de baixa renda e de classe média são enormes. Não estou falando apenas da qualidade das escolas que frequentam e da oportunidade de terem aulas particulares. Jovens de famílias mais abastadas têm muito mais acesso a informações e livros.


Viajam, debatem sobre variados assuntos com os pais e os amigos da família, que também são pessoas com boa formação. Aos 12 anos, uma criança de alta renda teve, em média, 6 000 horas a mais de interação com adultos. Toda essa bagagem resulta em mais conhecimento e mais confiança. Mas não é só isso.


Quando crescem, muitas vezes a rede de amigos e conhecidos também aumenta a probabilidade de conseguirem estágios e oportunidades de emprego. Jovens com essa formação têm o dobro de chance de sucesso na vida adulta do que os mais pobres. Os números podem mudar, mas essa é a realidade nos Estados Unidos e imagino que também seja no caso brasileiro.

EXAME - Como mudar esse quadro?


Eric Schwarz - Se quisermos aumentar a igualdade de oportunidades, o foco precisa ser a educação. Por isso, fazemos parcerias com escolas públicas em regiões pobres. Aumentamos a carga horária diária de 6 para 9 horas e preenchemos esse tempo extra com várias atividades.


Atraímos voluntários — médicos, engenheiros, cineastas, carpinteiros e arquitetos — para ser mentores e desenvolver projetos com os alunos. Um engenheiro pode desenvolver um robô, o que envolve o uso da matemática. Um advogado pode preparar a turma para simular um julgamento, uma oportunidade de melhorar a escrita e a apresentação oral.


Também contratamos estudantes de pedagogia e de outros cursos. Na parte da manhã, eles ajudam os professores como assistentes. À tarde, esses assistentes fazem sessões de reforço com os alunos e também ajudam os voluntários dentro das salas de aula.


EXAME - É fácil atrair os voluntários?  


Eric Schwarz - Sim. Temos conseguido atrair gente que trabalha no banco Goldman Sachs e em empresas de tecnologia, como Cisco, Google e SanDisk. Essa é uma chance para esses profissionais se envolverem com as cidades onde vivem.


Em última instância, de melhorar o país. Cada um precisa dedicar dez sessões de 1 hora e meia durante um prazo de dois meses e meio. Antes de tudo, recebem uma manhã de treinamento.


EXAME - Nas escolas onde o senhor atua, já houve relatos de violência contra professores e assistentes. Qual é a estratégia para resolver isso?


Eric Schwarz - Educar crianças de baixa renda, muitas vezes revoltadas com a situação em que se encontram, nem sempre é fácil. Mas elas respondem bem quando você oferece boas oportunidades. Claro que é preciso ter um pessoal bem treinado e regras claras para os alunos. Basicamente, quem não se comporta fica de fora.


E, quando seus amigos estão desenvolvendo um aplicativo com um especialista do Google, ficar de fora pode ser bem desagradável. É nisso que baseamos nosso trabalho.


Nas salas com pouco mais de 20 alunos, os voluntários estão sempre acompanhados por pelo menos um ajudante e outros dois voluntários mais experientes. A proporção entre o número de adultos e o de alunos é crucial para o sucesso.


EXAME - Em termos acadêmicos, qual é o resultado da Citizen Schools?


Eric Schwarz - Fazemos questão de sempre medir os resultados. Antes de mais nada, é bom lembrar que nosso público é formado pelos filhos das famílias mais pobres. Os jovens nas escolas onde trabalhamos há mais anos conseguem diminuir e, em muitos casos, eliminar a diferença de desempenho acadêmico que antes os separava de alunos de famílias de renda média.


Não é um milagre, não acontece em apenas um ano, mas dá para chegar lá. O curioso é que um estudo recente da Universidade de Vermont descobriu que a experiência também tem sido proveitosa para os voluntários. A maior parte deles diz que aprendeu a se comunicar melhor.


Muitos se dizem mais ligados às suas empresas por elas terem aberto espaço ao trabalho voluntário. Se alguém no Brasil estiver interessado em conhecer mais o que fazemos, estamos prontos para colaborar.

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